Foto: Retirada da internet
Frustração de democratas, irritação de republicanos, desconfiança global e uma derrota no Senado que pode derrubar sua principal bandeira diante do público interno. É esse o saldo do primeiro ano de mandato do presidente Barack Obama, completado nesta quarta-feira (20) em meio a tentativas de reconquistar apoio interno e fortalecer a economia para que até o fim do seu mandato possa cumprir sua promessa de campanha e dar fim às guerras dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
Enquanto os aliados reclamam de concessões feitas aos adversários - como a ampliação do contingente de soldados no Afeganistão e o fim de uma opção pública de plano de saúde no projeto de reforma enviado ao Congresso -, os republicanos atacam os gastos públicos e a intervenção estatal na economia em vários bancos e empresas por conta da crise detonada em setembro de 2008.
Os avanços nas legislações de direitos humanos, os primeiros resultados positivos da economia desde o início das turbulências e a recuperação da credibilidade dos EUA em foros internacionais são colocadas em segundo plano pela maioria dos americanos. A média das pesquisas sobre a popularidade do presidente, calculada pela CNN, aponta que Obama conta com 51% de aprovação popular, contra 54% no fim do ano passado.
Nada que se aproxime dos menos de 10% que seu antecessor, o conservador George W. Bush, exibia nos últimos meses de Casa Branca. Mas fica longe do clima de euforia vivido há um ano na avenida Pensilvânia, onde Obama foi empossado como 44º presidente da nação mais poderosa do mundo. O primeiro negro a conseguir esse feito, a contragosto de muitos americanos que ainda conservam preconceitos de décadas atrás, quando os descendentes de africanos sofriam preconceito institucionalizado.
Em um ano também diminuiu o poder do charme global de Obama, que, emulando o mítico presidente John Kennedy, fez discursos para milhares de pessoas não apenas no país, mas também diante do Portal de Brandemburgo, em Berlim. Suas viagens ao exterior agora são alvo de duro escrutínio da mídia americana.
"Eles se abaixou demais para cumprimentar o imperador do Japão! Ele é uma vergonha para todos nós!", gritou repetidamente o radialista Rush Limbaugh, após uma visita do presidente a Tóquio. Limbaugh é visto como um dos porta-vozes conservadores que fazem fama com ataques nem sempre razoáveis aos democratas e que ajudam a desgastar o governo. Outro deles é a rede Fox, a quem Obama recusou entrevistas por considerar que a empresa "não faz jornalismo". Mais tarde, cedeu.
Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defensor do democrata desde quando o americano era pré-candidato à Casa Branca, reduziu seu encanto por Obama e não poupa críticas a posições do governo dos EUA, como aconteceu na convenção do clima das Nações Unidas. Acusou o colega de levar posições "pouco ambiciosas" para debater aquecimento global.
Foi criticado mesmo quando recebeu o prêmio Nobel da Paz por seus esforços de pacificação. Primeiro porque muitos o julgaram um vencedor precoce de uma honraria tão importante. Um mês depois, porque ampliou o contigente de soldados no Afeganistão, alegando que "guerras às vezes são necessárias para trazer paz".
Para muitos defensores de Obama, o futuro difícil ficou mais sombrio na noite de terça-feira (20), quando Martha Coakley perdeu para o republicano azarão Scott Brown a disputa da vaga aberta no Senado após a morte do democrata Ted Kennedy, renomado defensor das causas ligadas à saúde em um país onde esse não é um direito universal.
Principal item da agenda doméstica do presidente, a reforma da saúde agora pode depender do apoio de um membro do partido rival para ser aprovada. "Obama também tem a opção de acelerar essa reforma da saúde enquanto o senador democrata substituto do Kennedy estiver lá. Isso o força a assumir mais compromissos que talvez ele não quisesse, mas encaminha o resto do mandato internamente", disse Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, ao
UOL Notícias.
"As outras conquistas são importantes, mas a prioridade é a reforma da saúde e a recuperação da economia, que está melhorando. É isso que vai pesar no futuro dele."
A derrota de terça-feira na disputa por uma vaga em um universo de 100 senadores parece pouco para comprometer o governo apenas um ano depois da posse presidencial de uma das figuras mais populares do mundo. Mas a oposição acirrada dos republicanos desde o início ameaça a pauta dos democratas e amplia o desgaste, segundo Barbosa, em um país que o democrata herdou dividido após o governo de George W. Bush e a campanha pela Casa Branca contra John McCain.
"Obama achou que daria para fazer entendimento com os republicanos, mas acabou hostilizado desde o início. Não só por preconceitos raciais de parte da população americana, mas também por grupos mais conservadores do ponto de vista econômico. Eles reprovaram a ampliação do papel do Estado na economia, depois dos pacotes de ajudas a bancos e à General Motors, por exemplo. Não importa que isso fosse necessário, esses grupos de lobby se fizeram presentes raivosamente", afirmou o diplomata.
Para os democratas a ponderação sobre os números em queda remetem a um republicano. Altamente popular ao fim de seu segundo mandato, Ronald Reagan (1911-2004) teve índices medíocres de aprovação no primeiro ano. A vitória na Guerra Fria contra os soviéticos e a aceleração da economia dos EUA na década de 80 deram ao carismático mandatário sua reeleição por ampla margem. Obama pode conseguir o mesmo se reerguer a economia e der fim às guerras no exterior.
"O terrorismo continua ameaçando, a recuperação da economia não está garantida e a reforma da saúde, muito menos", vaticina Barbosa. "Em geral o primeiro ano foi satisfatório, ainda mais se levarmos em conta o alto nível de expectativa que existia no mundo inteiro. Nos próximos anos, a pressão pode até aumentar, mas com a expectativa menos elevada as chances são razoáveis de ele recuperar parte do prestígio perdido."
Fonte : uol noticias
Por: Francisco José Sales